quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Adeus anus velho

Ops! Não para de chover no Rio de Janeiro. Parece mentira. Não para de chover! Ontem foi a noite e a madrugada inteira de chuva, chuva, chuva. Bom para mim que não via chuva há tempos, mau para um monte de desabrigado e, até agora, dezoito mortos.
Aqui de casa, conseguimos ver o Campo do Gericinó, um espaço destinado aos treinamentos militares do Exército, é um descampado enorme, vermelho em tempos de sol e verdinho em tempos de fresca. Hoje está inundado. Juro, eu tenho um desses binóculos de longa distancia: alagado, um rio virou o espaço do Gericinó. Meu tio que é um ciclista nato e anda por toda Mesquita em dias normais e aumenta suas pedaladas em tempos festivos, me disse hoje cedo que a Chatuba, não a da Penha, mas a de Mesquita, está debaixo de lama. Tristeza. Deixemos as notícias de lado.
Lá se vai mais um ano. E como foi bom esse ano. Estabilidade. Novos amigos. Nova casa. Casamento. Enfim... Esse ano, eu, praticamente, aprendi todos os procedimentos de segurança, e em todas as empresas brasileiras conhecidas, para viajar por esse Brasil enorme. Ano que vem não será diferente, vejamos, Cárceres (Goiás), Cuiabá (Mato Grosso) e Buenos Aires (Argentina) são viagens certas para esse ventríloquo aqui. Fora os pulos no amado Rio de Janeiro. Já ia me esquecendo, Bahia também está na rota.
Daqui uns dias, O Ventríloquo completará mais um ano. Aprendi a ser feliz com minha tristeza mórbida, mas fiz uma promessa esse ano e cumprirei no ano que vem, com certeza. Vamos às curiosidades de ceia.
Peguei o carro hoje e saí com meu pai para comprar um desodorante para mim, papo gostoso, gosto muito de conversar com meu pai... Comemos uns bolinhos de aipim e uns pasteis de carne num barzinho tradicional aqui de Mesquita, depois fomos comprar a tradicional Malzibier da virada, na verdade, eu e Gustavo bebemos essa joça desde que nos conhecemos por gente, seja em virada ou virado. Mercados lotados! Na saída de um encontrei minha prima Keila. Minha prima Keila é linda e o tempo passa e continua linda. Ô preta linda, só perde para Ana, é claro. Acabei lembrando rapidamente das nossas muitas conversas, me lembro do seu casamento, aliás, também casou com um negão bonito. Casal bonito os dois. Tenho que colocar as fofocas em dia com ela.
Compradas as Malzibier’s no mercadinho, único local que não tinha fila, partimos, eu e o coroa, para a casa do Gustavo. Me surpreendi em perceber que minha tia já não faz mais rabanada: comprou pronta na Art Pão, famosa padaria aqui da Baixada. Putz, o tempo passa mesmo!
Desde que cheguei ao Rio emagreci, pode acreditar, eu emagreci. Na tevê, São Silvestre, na rua, fogos estourando. Mais tarde, parto com flauta para a casa do primo, vai rolar o bom e velho som dos bêbados!
É isso. De repente, mais um poema até anoitecer. Desde ontem estou inspirado... Salve, salve, amigos velhos. Salve, salve, amigos novos. Salve, salve, amigos futuros!

Poema último

Todos os poemas que escrevi
São obviedades tão próximas do obsceno
Que cada verso que escrevo
É na verdade algo que não fiz
São sentimentos alheios
Verborragias poéticas
Beijos no espelho ou no joelho
É uma infância perdida
Uma doçura diabética
Quando te conheci
Minha poesia ficou mais pura
Não sei se era primavera ou verão
Hoje é trinta e um
Viro da cama como vira o ano
Em frente à grande janela da cozinha
Um velho abacateiro
A chuva não para de cair
A perspectiva das coisas é estar aqui
Pensando em você.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

25 de dezembro de 2009

É bom que se saiba que eu estou aqui. E que vejo no natal minha agonia. É bom que se saiba que estou só. Mas que não sinto pena de mim e de ninguém.
E eu estou aqui, mais um natal. Natal que só existiu para mim quando criança. Quando ainda banguela, quando ainda existia O Vila em Realengo. Quando ainda era proibido para mim atravessar a estrada da Água Branca. Quando percorríamos a calçada até o mercado Rio ou até a Casa da Banha para comprar pão de rabanada. O colo da avó, as histórias do avô.
Não, eu não prezo mais pelo natal. Fico agoniado, estou sempre sozinho. Sempre acontece alguma coisa e eu fico só. Há anos a ceia é comida no almoço do dia 24. Há anos minha mãe dá plantão no hospital e agora que está em casa se recolhe para dormir. Meu pai adormece no sofá, logo a acompanha. Fico só. Alguns bons amigos ligam, os de sempre: Thiago, Kátia... Agora tem o Kiko. Atendo o telefone constrangido. Não gosto do natal. Como explicar isso. Músicas natalinas me perseguem até no laptop. Que inferno!
A televisão só passa filmes sobre Jesus. Desenhos sobre o natal. Ensaio um sorriso amarelo. Me recolho e visto a solidão habitual. A noite vai se seguindo, ainda é dia 24. Nas páginas de relacionamento, aquelas mensagens prontas. Todos parecem amar o natal – menos eu.
Vou dormir. Não ouço fogos. Sorrisos. Nada.
Me levanto tarde. É dia 25. Uma chuva fina cai na cidade. Está trovejando. Quantos meses não ouço um trovão? É natal. É o meu natal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Bar Luiz

Ando com poucas palavras. Ontem fui com dois amigos ao Bar Luiz. Comemos (muito) e bebemos (muito mais ainda) e conversamos quase uma tarde inteira. O papo não foi mais longe, pois tinhamos uma missão: comprar meu terno de casamento. Aliás, vale um alerta camarada ouvinte, até o meu casamento, o assunto por aqui será, praticamente o mesmo: casamento! Então, se você não tem saco ou ouvidos para isso, melhor parar por aqui.
Depois dos quitutes, confesso que a língua de boi defumada à milanesa servida ali é coisa dos deuses, fomos nós "caçar" meu terno. Dá-lhe facada! Multiplica essa facada, sei lá, por cinco, coloca mais uma grana, foi o que eu paguei pelo meu terno! É aquilo: "você vai casar...", "o terno você aproveita...", esse tipo de coisa. Terno comprado, ajustes marcados, pego o caminho de casa.
Sabe qual é a melhor coisa de ficar fora do Rio de Janeiro um certo tempo (pelo menos tem sido para mim)? É nem se importar mais com engarrafamento. Engarrafamento na Presidente Vargas. Engarrafamento na Leopoldina. No Elevado. Na Avenida Brasil... engarrafamento até na calçada da Primeiro de Março. E você lá, meio alienígena, carioca longe de casa fica alienígena quando volta: sorrindo para tudo e para todos!
Nada te estressa. Bateram na traseira do carro: "a gente dá um jeito...".
Fila em porta de bar: "me dá um chope que vou bebendo em pé..." e a vida vai seguindo e o casamento vai chegando...
Terno comprado. É a vida que segue, uma pontinha até de saudade de Aracaju, uma pontada grande de vontade de voltar. Uma pressãozinha de ir morar em outro lugar. E a vida que segue com seu rumo certo e incerto.
Ps. Fico devendo uma foto... Mas a internet tá que tá hoje! Paciência!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pois quando a gente promete ser feliz...

Dentro das amenidades das coisas, eu me sinto bem. Agora pouco estava empolgado com um conto. Passei a noite inteira arquitetando cada palavra, cada frase. Cheguei a acordar Ana para falar da minha empolgação. Adormeci com a idéia na cabeça. Hoje quando ela foi trabalhar, fiquei em casa, traçando um esboço da história, trabalhando no conto. O telefone toca, recebo uma mensagem de Aracaju, me avisando que o céu estava cinza: “talvez chova”, dizia a mensagem. Felicitações pela proximidade do casamento, coisas que amigos fazem. Tenho amigos por lá.
A preta me liga: tomou café? Depositou o dinheiro no banco? Vai ao Centro? Marcus ligou? – coisas de mulher. Contei sobre a mensagem, ela sorriu: “Aracaju chora... até a cidade sente sua falta” e riu. Pode ser, penso eu. Estou empolgado com a volta, levar a preta aos lugares que caminhei. Inseri-la no núcleo de amigos, almoçar onde eu almoçava, sorrir com o que eu sorria. Se chatear com o que eu chateava. Nova vida. Vida nova. De volta ao começo.
Sexta-feira, quando cheguei ao Rio de Janeiro, a noitinha fui à praça com Ana. Papeávamos e eu contava sobre as pessoas que conheci por lá. Tracei cada um e a importância que tinham para mim e a que eu achava que tinha para eles. Talvez, seja até uma missão viver por lá. Mesmo com a angústia de querer ficar aqui. Pois eu queria ficar por aqui e fazer o que faço por lá, mas lá precisam mais de mim do que aqui: fato.
Na falta do que fazer por aqui, deletei o conto que eu escrevia, pensei: tenho tempo para escrever um melhor. E vamos seguindo. Coisa mais linda é ver o Rio de Janeiro mais uma vez. Coisa mais linda é poder voltar para cá e para lá: sempre haverá gente me esperando e me ensinando a ser FELIZ!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Boa noite, boa sorte e até breve...

Daqui a algumas horas, pela milésima vez, pego um avião rumo ao Rio de Janeiro. Minha cidade natal. Tão querida. Com seus morros e avenidas. Iluminada. Me esperando com vento e chuva forte. Com o céu cinza que todo carioca despreza e odeia. Mas depois de oito meses longe dela, oito meses vendo um céu azul de doer a retina. Chuva e temporal até que me caem bem. Um pouco de cinza para mudar a tela da minha vida.
Não sei o que escrever. À frente, o desconhecido. Na mala, uma pimenta caseira. Poucas roupas e muitos sonhos. Vivo a sonhar. Com essa e outra vida. Com uma anterior ou vindoura. Vida. Sempre me despeço pensando no fim. Adoro voar. Lá em cima me sinto seguro.
Não tenho muito que escrever. Meus pais no aeroporto e a preta no . To chegando meu Rio de Janeiro. Gustavo, prepara o violão e a malzibier. Boa noite, boa sorte e até breve...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Esta conversa já estava pronta há séculos, talvez, há meses, há anos, mas só agora pude arquitetá-la como queria. Só agora achei o tom certo. Só agora, faltando pouco para o altar, que achei que merecia filosofar sobre o assunto.


Tenho que ser rápido, hoje foi dia de artífice das palavras e ainda preciso concluir o que iniciei logo cedo. A vida voltou a se acertar, a maldita depressão está indo aos poucos embora como lama de enchente e eu voltei a trabalhar na tese. Nesse final de semana louco que tive, muita coisa boa me aconteceu. Poderia aqui listar horas e horas de momentos agradáveis que passei com os amigos que fiz aqui em Aracaju e como disse a preta em telefonema maravilhoso, aprendi a não me isolar mais quando o anjo negro da tristeza resolve me abraçar! E isso há de acontecer de novo. Por isso, antes de tudo, obrigado Aquino (Man), Emily, Neto, Hermano (Rabicó) e Aline (Pequeno Gafanhoto). Sem contar e sempre presente mesmo longe (estava em Maceió esse final de semana), o “anjo mais velho”, meu irmão Kiko (pois humor é coisa séria!).
Ligar para os meus pais também foi um alento tremendo. A prosa do meu pai, me reconfortou demais. E é sempre bom dizer “eu te amo” quando se quer dizer “eu te amo”. Por isso, você que está me ouvindo agora, diga “eu te amo” sem se sentir piegas! Pode dizer, vale a pena.
Enfim, como eu disse não vou me demorar muito. Vamos ao último chope em Aracaju. Pelo menos, o do ano de 2009.
Me pareceu hoje que estes mesmos nomes supracitados resolveram tirar folga de mim... Cada um estava fazendo algo. Ou ficou em casa por doença mesmo. Mas depois de trabalhar um dia inteiro num texto e não concluí-lo, resolvi relaxar um pouco, sair para caminhar, ou fazer o de sempre: prosear. Pois amanhã, será a mesma coisa! Convidei meu amigo de sempre: o gaucho!
Resolvemos andar. Acabamos parando no Shopping Jardins e pegamos a sessão das 21:55: “Herbert de perto”. Uma palavra sobre o documentário: fantástico! Vale a pena sentar na cadeira e acompanhar cada palavra e por que não? cada acorde de guitarra.
Dali, o habitual chope no Ferreiro. Nada pesado. Era papo apenas. Assunto mor: casamento. Este tema paira sobre minha cabeça nesses últimos dias. Um misto de ansiedade e angústia. Felicidade e apreensão. Como vai ser? Como será o vestido da preta? Vou chorar, vou sorrir? Pois é, para quem não acreditava: Bruno Alvaro vai se casar! Serei feliz? A farei feliz? Essas coisas passarão pela sua cabeça, meu jovem, hão de passar! Elas tem que passar
Segundo minha mãe, a idade está me deixando mais bonito, ou seria mais sereno? – acredito que isso é comentário de mãe. Dia desses quando fui ao Rio de Janeiro, uma tia reafirmou a frase – acredito que isso é comentário de tia. Mas estou começando a me sentir melhor mesmo com minha aparência, apesar da barriguinha me incomodar um pouco. Dei de observar, há certo tempo, diz Ana que já percebe isso há muitos carnavais no Cordão do Boitatá, que ando mais imponente – daqui a 30 anos, espero eu, direi que ando impotente! E não é segredo para ela que em alguns fins de semana, não todos, saio para beber meu chopinho, o que continuará acontecendo com ela aqui, é claro! E em sua companhia, é claro! Como sempre foi no Rio de Janeiro!
Bebo, no máximo, duas tulipas multiplicadas por cinco. Brincadeirinha. Meu companheiro de copo e de prosa, também é comprometido e um cara sério, sendo assim, é o par ideal para botecos e restaurantes, a preta então nunca reclamou. Criamos, eu e ele, um código, nunca sentar muito próximo de mesas com apenas duas mulheres desacompanhadas e caso isso aconteça, nunca olhar, mesmo que sejam bonitas, bom, só uma olhada vesga, pois não arranca pedaço, mas não pode deixar elas perceberem. E se elas olharem, pedimos a conta. Está certo, já sei o comentário, no mínimo, todas acharam que éramos um casal gay – fazer o que? A vida é um arco-íris meu caro amigo! E para se manter ileso do sexo feminino tem que fazer isso! Veja lá, não é segredo! Chega um momento que o cara tem que escolher e eu e esse amigo escolhemos, não um ao outro, claro! Sem piadas dúbias!
Hoje estávamos analisando essa vida de “solteiro” que não é solteiro. Contei, talvez, pela milésima vez como comecei a namorar com Ana. Na verdade, acho que todo mundo já sabe e se cansa de ouvir, só não reclamam os apaixonados, pois para quem está amando, até patinho no lago fica romântico. Pois bem, hoje, acordei com trechos do livro A insustentável leveza do ser, do Milan Kundera, na cabeça. Então, entre um texto em latim e outro em castelhano medieval, eu me pegava com trechos desse livro na cachola. Fui à estante e resolvi folheá-lo um pouco, deitado na rede, não antes sem encher uma taça de vinho italiano maravilhoso, na verdade, um restinho que tinha na garrafa, isso é outra história.
Revi a dedicatória da preta, acho que já reproduzi em algum lugar, então, deixa ser. Leio um pedaço aqui, leio outro ali. E me deparei com a seguinte passagem que, inclusive, tentei citar para esse meu amigo, enquanto estávamos falando sobre a escolha: ser solteiro, ser casado:

“Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).”

Deus do céu! Fantástico isso. Alguém mais quer explicações plausíveis para casar? Fecho aqui o papo de hoje. Tenho que trabalhar na madruga, hoje vejo o sol nascer!

domingo, 13 de dezembro de 2009

As lágrimas ardem

Embora eu já não saiba o meu paradeiro
Embora a vida me prenda com seu arreio
Me arrepio os pelos do braço
Quando abraço um beijo
Se mordes meus lábios insanos de desejo
Eu digo adeus a mim mesmo
Pois quando foste embora de mim
Embora eu soubesse que era o meu fim
Te trouxeste aqui comigo
Todos os dias da minha existência
Cada passo dado na eternidade
Eu te esperaria para outra vida
E se é carência ou saudade – eu não sei.
Pelo que me disse a lua
Sua voz não é muda
Sussurre mais uma vez tuas palavras de amor no meu ouvido
Que eu me curo.
Onde está você agora?
Eu me curo.
Eu chorei essa noite
Eu chorei essa tarde
Eu chorei esses dias
E as lágrimas ardem.
Quando olharei novamente teus lábios entreabertos
Bem leves
Enquanto leve te penetro a alma?
Embora a vida me prenda com seu arreio
Queria me desprender do mundo
E voar e no fundo
Voltar de onde tudo veio
Pois escolhi o céu
Para a minha centelha.
Embora eu saiba
Mas não admita
A vida não me odeia
E seu eu faço minha própria saída
Meu poema me rodeia
E com os versos na instante
Liberto minha alma
E sussurro como um alto falante.

Aracaju, 13 de dezembro de 2009 – 02:39 AM
Bruno Alvaro

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O que faz uma canção de amor? (Em que lugar do tempo?)

Capa completa do disco Nursery Crime, 1971 - Arte de Paul Whitehead inspirado na canção The Musical Box


Onde você estava ontem? Escrevendo um poema? Compondo uma canção de amor? Colocando uma música na novela para embalar o casal de protagonistas e figurar no coração de casaizinhos de mãos dadas vendo o pôr do sol no Arpoador?
Há alguns anos, exatamente numa sexta-feira, num dia 11 de dezembro de 1998, eu não sei onde eu estava, eu não sei o que eu fazia. Acordei hoje com isso na cabeça: se eu pudesse voltar para que lugar do tempo eu iria? Hoje é dia 11 de dezembro e também é uma sexta-feira. Para que lugar do tempo eu iria? Que canção eu estaria ouvindo?
Quero uma canção de amor que me faça acreditar que os casais se sentarão para ver o pôr do sol. O que eu fazia ontem? O que você fazia ontem? Eu vi o pôr do sol da janela do meu apartamento em Aracaju e qual foi minha canção de amor? O que faz uma canção de amor, meu jovem?
Apenas uma canção de amor, dessas que a gente ouve e diz: “essa é a nossa música...”; “Acabou de tocar nossa canção...”; “Essa é a nossa canção para sempre...”. Quantas músicas vocês tem? Em que lugar no tempo estão as canções de amor? Melhor: o que caracteriza uma canção de amor? Isso é curioso.
Agora pouco, estava ouvindo o disco Nursery Crime do Genesis... é de 1971, eu nem sonhava nascer. Porém, acho fantástico como as sete canções desse trabalho me chamam atenção. Me despertam os sentidos. Cada uma delas. As letras ou fragmentos delas soltos são utilizados por mim, quase no cotidiano como que para ver o pôr do sol no Arpoador. Ou mesmo caminhar na pista Claudio Coutinho, apelidada carinhosamente pelos cariocas de “Caminho dos Bem-te-vis”.
Levantei cedo e coloquei o álbum para tocar. De cara The Musical Box abre o disco, inclusive, inspira a capa do álbum feita belissimamente pelo artista Paul Whitehead.
Letra forte, pesada. Durante todos os dez minutos e vinte nove segundos o que ouve-se são riffs de guitarra certeiros. Uma bateria massacrante do Phil Collins faz mais que marcar o ritmo. A voz rouca do Peter Gabriel, sua interpretação de cada verso. Aquele inglês inglês, entende? Os teclados do Tony Banks, enfim, não tem como definir.
Essa música se encerra com umas das estrofes mais surpreendentes da minha pobre audição anglo-saxão:

I've been waiting here for so long
And all this time that passed me by.
It doesn't seem to matter now.
You stand there with your fixed expression
Casting doubt on all I have to say.
Why don't you touch me, touch me?
Why don't you touch me, touch me?
Touch me now, now, now, now, now...


Traduzindo, ficaria uma coisa mais ou menos: “Estive esperando aqui há tanto tempo/ E todo este tempo me passou/ Nem parece que importa mais agora/ Você em pé aí com esta expressão fixa/ Duvidando em tudo que tenho a dizer/ Porque você não me toca, me toca?/ Porque você não me toca, me toca?/ Me toque agora, agora, agora, agora, agora...”. Aí é que está. A força da estrofe, a forma como Steve Hackett toca o riff final. Peter Gabriel gritando: Touch me now, now, now, now... Me dá uma angústia maravilhosa. Me dá vontade de correr e ver o pôr do sol.
Não vou contextualizar a letra, pois a parte que me cabe é essa que citei e quem faz as canções de amor somos nós. Ontem a recitei para mim mesmo, com voz rouca e pesada, quase como um mantra, palavra por palavra: “I've been waiting here for so long/ And all this time that passed me by./ It doesn't/ Seem to matter now./ You stand there with your fixed expression/ Casting doubt on all I have to say./ Why don't you touch me, touch me?/ Why don't you touch me, touch me?/ Touch me now, now, now, now, now...”.
Hoje fiz isso de novo e após recitar a letra, fui caminhar no Parque da Sementeira ouvindo o mesmo Nursery Crime de ontem e de amanhã e de 1971. Nas frases finais de The Musical Box, confesso, gritei: “Why don't you touch me, touch me?/ Why don't you touch me, touch me?/ Touch me now, now, now, now, now...”. Acho que as pessoas riram, acho que outras não entenderam... Mas eu precisava, eu precisava. Eu precisava ver um pôr do sol já de manhã.
Não há definição nessa vida para algumas coisas. A gente fala, fala. São apenas devaneios. Agora pouco, questionei um amigo, via MSN, quando chamado para ir a um show com ele na Rua da Cultura, na segunda-feira próxima: “O que faz a gente transformar um disco como Nursery Crime em trilha de amor? Será que estou triste? Será que estou tão deprimido que The Musical Box, falando sobre uma menina que mata um amiguinho, arrancando sua cabeça com um taco, pode se tornar uma canção de amor? E que amor é esse?”. Ele ria. De repente, analisei mais plenamente: “Rapaz, eu estou é muito feliz. Isso sim! Pois, fazer um disco como esse de trilha de amor, e o pior, entendendo as letras, tem consciência de que elas não falam de amor, e transpor isso para o meu amor... Eu estou é muito feliz. Aliás, somos nós que fazemos nossas trilhas de amor!”.
Alguém aí tem uma canção de amor melhor que a minha?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A força do não dito

Tudo de bom que não falo. Melhor o silêncio, pois guardo dentro de mim os chiados e a regras gramaticais das gírias sobre a mesa de bar. O não dito é o meu melhor, pois insuportável é a dor de dizer aquilo que há descontrole nas palavras – eu sou um descontrolado palavriante. Você ouviu? Você o viu? Você ou viu? Você: o viu!
Uma avalanche de letras, palavrinhas soltas, sílabas, vogais. Abafadas, abertas, sem sentido: a e i o u. O caderno de caligrafia que eu nunca soube usar. Letras redondas, dizia a tia Janaína e eu cansado de tentar.
Estou meio tonto. Carrego dentro de mim um violão. As cordas afinando-se automaticamente em cada acorde dissonante. A caixa, o peito. O braço, minhas mãos. Traste. Trastes.
Digam o que quiserem: o silêncio nem sempre é a solidão. E aquilo que não foi dito é porque não há de ser um não.
Ps. Ao som do disco Spectral Mornings de Steve Hackett.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Doce andarilho...

Estou no Rio de Janeiro, é sexta-feira, dia 27 de novembro. Está quente, muito quente, meus cabelos já estão pedindo corte e agora, mais que nunca, pedem urgentemente para serem podados. Gotículas penduram-se em suas pontas cacheadas – a preta sorri.
Piso no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Largo de São Francisco de Paula, sem número, um prédio histórico, imponente. Quando o avisto me pergunto quantos churrasquinhos de gato da Sônia comi ali me banhando de latão de cerveja com os amigos no final das aulas? Quantas canecas de vinho e bolinhos de bacalhau foram por nós degustados nos finais de laboratório? Incontáveis conversas: futuro, passado, presente? Passado. Volto o pensamento para o presente e vou direto encontrar minha orientadora, temos que conversar: planos de capítulo, vida em Aracaju, notícias sobre minha atuação na Universidade Federal de Sergipe, minha tese de doutorado. A tarde ainda estava quente. Eu havia chegado no dia anterior, ainda me adaptava ao calor carioca – ao meu calor carioca.
Apresento meu trabalho, recebo as críticas, comentários, ponto final. Mais um papo com a orientadora. Já não estou mais lá. Estou agora sentado no tradicional Amarelinho da Cinelândia, confesso que já foi melhor, mas deixo o caso para lá. É sexta-feira. No IFCS, encontramos com Kimon Speciale (ou ele que veio ao nosso encontro).

Kimon é um daqueles amigos que você não consegue recusar um convite para beber. A preta não bebe ou pelo menos não bebe muito como nós. Os dois porres, contados por mim, que ela tomou foram quando saímos para beber com ele – a primeira vez foi no Araponga, nosso escritório na época das aulas de mestrado, se me lembro bem, foi um engradado de cerveja e passos trocados até o ponto de ônibus (se beber, não dirija!). Dá-lhe chope, e como era bem tirado, meu Deus, como era bem tirado, disso não posso reclamar! Posso sentir a primeira golada, o corpo esfriando aos poucos... “Mais dois, desce três, quatro...”. Saldo final, 43, 48? 50 tulipas? Nem sei mais! O importante é que matei uma vontade enorme. Colocamos os três o papo em dia. Sua namorada não estava, se estivesse, dupliquemos um pouco esses números com certeza! Juliana bebe bem também, me lembro, uma vez em Porto Alegre, confesso, a menina me barra. Às minhas costas o Teatro Municipal. A tarde dando aos pouquinhos espaço à noite. E o chope descendo gelado.

Outra incursão, outro relembrar de caminhada pelo Centro do Rio, bem mais tardia que essa minha rápida visita de trabalho... Acho que não contei essa. Mas vale.
Há uma aconchegante livraria, na Rua do Ouvidor, chamada Folha Seca... Para mim, um dos melhores atendimentos da cidade junto com o pessoal da Arlequim. Mas, enfim, numa noite fresca, caminhávamos eu e a preta e comentei que gostava de Maiakóvski, foi quando entramos nela e fui presenteado com um exemplar de Poemas, traduzido pelos irmãos Campos e Boris Schnaiderman. Belo. Inesquecível!
Ontem, quinta-feira, dia 03 de dezembro, entrei novamente na Folha Seca, só. Presenciei um bate-papo entre dois cariocas, um comprador e o dono, creio que é o dono da livraria, gente boa, por sinal, bom de papo também, mesmo que não seja o dono, é gente boa, isso é fato consumado. Os dois discutiam sobre os Nogueira, o João e o Diogo. Peguei a conversa meio que quase no fim, pensei em entrar, até ensaiei. Desisti. Queria apenas ficar ouvindo nosso sotaque, como me é caro nosso sotaque carioca! Me lembro que a resolução foi: o filho não é melhor que o pai. “O negócio dele é futebol, joga muito bem o garoto...” disse o comprador e foi embora, encerrando a contenda sambista. Eu procurava um livro de partituras do Gonzaguinha, publicado pela Irmãos Vitale... Não encontrei, o dono me pareceu mais triste que eu. Mais uma vez, ensaiei um papo, mas lembrei que a preta me esperaria no Centro Cultural Banco do Brasil, logo ali perto. A chuva caiu fina e refrescante. O tempo mudava no Rio de Janeiro. Quando abri a porta da livraria para sair, me virei e perguntei: “esse é o filho ou o pai?”. Ele sorriu e respondeu: “O pai...”. Lá dentro ficou o homem e o cd do João Nogueira tocando.
Na porta do CCBB, vi uma cena linda... Longe, eu via o sol se pondo, lá no fim da Avenida Presidente Vargas, ou pelo menos, no que eu conseguia ver entre a Igreja da Candelária e os altos prédios, ao lado oposto, o mar e um arco-íris bonito. Fiquei triste por estar sem minha máquina fotográfica. Eu estava no Rio de Janeiro. Os carros passando. O vai e vem das pessoas. Os chiados. Fotografei com o olhar. Só eu sei.
Era dia de livraria. Fomos parar na Arlequim. Café, livros, música boa. Tomei um ótimo cálice de vinho do Porto. Encontrei o cd do Wilson das Neves que eu tanto procurava. Comprei.

Hoje, o tempo virou de vez. Quase perdi o avião. A Linha Vermelha, a Avenida Brasil, acho que todo e qualquer acesso ao Centro do Rio de Janeiro, ao subúrbio, ao bendito Galeão, estava congestionado, foi aquele dia que o Rio parou.
Ao longe a Igreja da Penha, linda, imponente. Só, lá no alto. Só, como eu agora aqui em meu escritório. No meu apartamento em Aracaju. Ao longe ficou o Rio de Janeiro. Uma semana que passou como um dia. É esquisito chegar à sua cidade a trabalho, correndo, tendo que resolver coisas importantes e não curtir realmente as ruas, as noites, os dias. Um suspirar que se foi rápido e novamente a rotina. Acho que a frase da belíssima Só Dói Quando Rio, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, resume bem o que eu senti quando pisei no Galeão: “só fico a vontade na minha cidade...”.


Mas isso passa. São reticências de um “doce andarilho”, como diria minha querida amiga Tatiane Reis. Como disse, agora pouco, ao meu primo Gustavo Alvaro, sempre que volto do Rio de Janeiro e piso em Aracaju, preciso de uns dias para me dar conta que não estou mais ali. Ao poucos, vivo novamente o ritmo daqui, a vida daqui e me apaixono novamente. Pois o que vale no fim é apaixonar-se por onde se mora. Mas amar, só amo um lugar. Agora vazio como um copo de chope na mesa de bar. Mas logo, logo, me encho de novo!





quinta-feira, 26 de novembro de 2009

“O dia em que o morro descer...”


Daqui a poucas horas entrarei num vôo direto para o Rio de Janeiro, exatamente, às 13:55, vôo 1844, poltrona 6F. Deixarei para trás, por uma semana, algumas coisas que construí com esmero de ourives, nestes últimos seis meses: amizades, orientações – saudade. Viajo com um trecho de música na cabeça: “Caminho em frente pra sentir saudade” (Janta – Marcelo Camelo).
Curioso. Dia desses num papel amarronzado, um amigo daqui veio e me presenteou, com escrita de próprio punho, com a letra de um samba lindo, que eu confesso: não conhecia, do grande baterista Wilson das Neves: O dia em que o morro descer e não for carnaval. Hoje, ou ontem, nem sei mais, foi jogo do meu querido Fluminense. Amor que herdei de meu pai. Na verdade, amor que compartilho com ele! Esse mesmo amigo me ligou à tarde, ele vascaíno, ele Confiança: “quer assistir o jogo aqui em casa?”. Eu tinha mala para arrumar, ainda estava na UFS, foram dois dias complicados, angustiantes, saí um caco de lá. Acabei dizendo não. No fundo, queria muito dizer “talvez”, muitas coisas envolviam minha resposta a ele. Meu sim ou não, era muita coisa. No fim das contas, apareceu ele no meu apartamento com um vinho português, safra 2005, duas lasanhas e um bom papo, eu tocava violão antes de abrir a porta. Acho que foi bom o talvez.
Ele estava angustiado, tanto quanto estou agora na hora de falar essas coisas para você. Ele tinha seus motivos – eu tenho os meus. Foi uma boa conversa, sobre muita coisa, quase não falei nada, eu também estava no meu momento reflexivo, uma boa amizade também é isso: silêncio, foi quando você me ligou. Acabamos não vendo direito o jogo, menos mal, meu tricolor das Laranjeiras foi derrotado por 5X1 da LDU. Quarta-feira, estarei no Maracanã com meu pai. Temos fé.
Lembro do cd onde está esta canção do Wilson das Neves, lembro de ter estado com ele nas mãos na Livraria da Travessa do CCBB do Rio de Janeiro, há alguns anos. Dentre as muitas encomendas que tenho para trazer do Rio pros meus alunos: livros, artigos, camisa de time, cd’s, comprarei “O Som Sagrado de Wilson das Neves”, comprarei, pois é bom... Eu sei que é. Comprarei para mim. Me darei esse gosto: entrarei na Arlequim, de certa forma, onde tudo começou e comprarei. Com gosto, comprarei.
Minha angustia tem muitos motivos, medo de não voltar, medo de não chegar. Sempre comentei e ainda afirmo isso veementemente: não tenho medo de morrer. Nunca tive. Também nunca tive medo de voar, esse ano, está certo, voei mais do que o de costume. Mas a angústia está, justamente, não concretizar o que prometi – não sei se o vinho está fazendo efeito. Mas há um medo contido hoje em mim. Confesso. Preciso concretizar coisas aqui e lá. Preciso ver o sorriso do meu pai, ouvir a voz da minha mãe. O traquejo da preta. O cheiro da minha terra. Meus pés no chão. O chope no Abracadabra. O ritmo do Rio de Janeiro. Mas preciso, também, voltar. Pisar aqui de novo. Sei que preciso. Vou e quero voltar. Vou cheio. Volto transbordando. Pois há poesia. Pois amanhã, subirei meu morro. O morro onde cresci e aprendi a ser gente. Onde parte de quem sou foi formado. O morro. Uma das muitas ladeiras do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, onde, como já disse Chico Buarque: “cada ribanceira é uma nação...”. Amanhã volto para a minha. Deus há de permitir que sim. E se não? Vivi.
Meu amigo Kiko, o anjo mais velho (eu sou o anjo torto, vai entender!) está vindo aqui em casa agora, talvez, mais vinho, mais conversa. Mais bom papo. Hoje não quero ficar só. Ficar só é solidão. Hoje aprendi que não acostumei com ela: a solidão. Menos mal, pois isso me deixa um pouco mais feliz e menos angustiado. O relógio faz tic-tac, tic-tac, tic-tac. Logo apertarei o cinto. Observarei pela milésima vez os procedimentos de segurança. “Em caso de pouso na água os assentos de suas poltronas são flutuantes”. “Em caso de...”. Caso o se não se concretizar: vivi.

sábado, 21 de novembro de 2009

"E o inverno no Leblon é quase glacial..."

O título é um verso de um poema de Antonio Cícero que foi musicado por Adriana Calcanhotto e gravado com o título Inverno, no cd A Fábrica do Poema de 1994 (ou 1995? Não lembro bem). Engraçado, foi o primeiro cd que comprei com meu próprio dinheiro, digo, com meu dinheiro, de algum trabalho que fiz, não lembro qual. O comprei em 1997, eu estava no 2º Grau, sim, ainda fiz o famoso 2º Grau...
Mas, enfim, é o seguinte, fico impressionado com uma coisa engraçada aqui em Aracaju, dá um vento e as pessoas se encasacam todas! Um vento sequer e: Casaco! Dia desses, numa reunião de departamento, reparei na secretária e ela estava toda encolhida, ao término fui perguntar se ela estava resfriada ou coisa do tipo e ela: “não professor, estou com frio, o ar condicionado estava no máximo...” eu sorri, só podia sorrir mesmo.
Antes de vir para cá, me recordo que um amigo estava saindo da UCP e comentou se eu queria substituí-lo como professor de História Medieval por lá... “bom”, pensei eu, “claro!”... Acabou que não rolou e parei aqui – melhor para mim.
Sinto muita falta do glacial inverno do Rio de Janeiro. Bangu, putz, Bangu é oito ou oitenta. Muito frio. Muito calor. Mesquita, minha cidade natal, é um caso interessante. Lembro-me de acordar de manhã (coisa rara, eu sei – eu acordar cedo) e ver meu quintal todo enevoado. Chuva de granizo era uma coisa fantástica por lá. Que saudade do meu quarto úmido, frio... saudade!
Adorava o inverno no Rio de Janeiro, a coisa do mar revolto, o povo reclamando do frio. Andar de trem era o máximo. Caminhar pelas ruas do Centro era tudo. Beber vinho. Que saudade.
Fui assistir dias atrás a um show do grande violonista Toquinho (já falei sobre isso por aqui) no Parque das Sementeiras, aqui perto de casa, fiquei realmente impressionado com a quantidade de gente usando casaco, numa noite agradável, de vento fresco, achei legal mesmo. Num tempo mais passado, coisas de dois meses, algo assim, um professor do departamento que fez o doutorado no Rio de Janeiro, me parou no corredor e me perguntou se como estava minha adaptação em Sergipe. Eu disse que tudo bem, etc., o engraçado foi ele falar do calor, uma frase me chamou muita atenção: “bom, não são os 40 graus do Rio de Janeiro, mas é calor...”. Realmente... ele tinha razão. Vejamos, no futuro, o inverno, pois o verão, ah, no verão estou indo bem...


Ps. Uma vez caminhei, no inverno, no Leblon e, sim, é meio glacial. Mas, ainda considero, muito mais, como uma figura de linguagem que comparar, por exemplo, ao inverno do Grande Rio...
Ps. 2 A foto não é no Leblon, mas era inverno no Rio de Janeiro e nem sei o que eu estava fazendo na praia...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...

Agora pouco me dei conta de que estou me sentindo solitário. Na verdade, um misto de cansaço com vontade de sobreviver é o que não cala minha voz. Deitei-me na cama, mesmo estando calor, senti frio, eu senti frio! O curioso é que não consigo mais chorar. Dia desses comentei com Ana o medo de me acostumar com a solidão, expliquei o quão difícil tem sido, e sei que o é para todos nessa vida. Mas, apenas não posso me permitir ao costume de ser só. Já fui demais sozinho.
Estou com insônia, pensei em ir caminhar, mas meu joelho dói um pouco e a merda da canela que o inseto no Maranhão mordeu, passou ou sei lá o que, ainda me incomoda um pouco – estou ficando velho, isso também me incomoda. Fiz torradas. Pensei em ir ao mercado comprar vinho. Desisti e sentei aqui para conversar com você que nem sei de onde é. Nem sei se existe alguém, fora meus amigos, que perde tempo em passar por aqui. Outro dia até me surpreendi quando um aluno meu comentou de vez em quando dá uma passada aqui...
Mas que dói, dói – a solidão. Sentei na cama e olhei a janela. Os carros cessam, a rua esvazia – todos no fundo, no fundo, são tão solitários como eu e você. Você que perdeu certo tempo por aqui. Mas a solidão é um fio de poema, sabe? Uma linha inconstante numa bizarra sintonia harmônica entre o dito e o não dito.
Mais cedo chorei por coisa boba. Boba mesmo. Veja só e eu que acabei de dizer que já nem sei ou lembro mais o que é chorar. Está certo, na verdade, não cheguei exatamente a chorar, isso me preocupa, mas me deu um arrepiozinho. Ouvindo The Smiths, acredita? Até ensaiei um tese sobre isso. Resolvi a tempo as minhas próprias hipóteses chulas. Conversei com meu primo Gustavo sobre o que há no grupo, nas melodias e nas letras que fazem gente como eu e ele se fixar naquilo. Chegamos à conclusão de que, no fundo, aquilo está no nosso subconsciente, num momento, num espaço da memória, da gente se arrastando no chão da varanda empurrando carrinhos ou brincando na base espacial do Playmobil, daí a gente cresceu, aprendeu música ou pelo menos a tocar alguns instrumentos e tem essas bandas que nem são lá essas coisas, mas que pegam a gente pelo pé. Há certa lógica no que formulamos. Curioso isso. Pois darei um salto estrondoso agora.
Há dois dias, deixei um amigo no aeroporto. Comigo ele deixou o carro, três textos para eu ler e criticar e dois cd’s do Astor Piazzolla para eu ouvir: “ouça a noite”, disse ele, com um riso sarcástico. Estou ouvindo agora Libertango, de 1974, e ele estava certo no que disse. Preciso de um vinho.
Não preguiça no meu corpo, se eu estivesse agora no Rio de Janeiro, nem sei o que estaria fazendo, talvez, a mesma coisa que faço agora: uma busca incansável pelo sono. Busco tanto que canso e resolvo fazer algo produtivo: ler um livro, pesquisar para o doutorado ou refazer os meus cálculos salariais.
Não que o Astor Piazzolla é bom mesmo? E olha que eu nem lembrava. Ouvi pouca coisa dele. Tai algo bem feito e que só bem feito pelos argentinos: o tango! Pois bem, relembro mais uma vez desse aluno que comentou que lia esporadicamente O Ventríloquo, acho que conseguirei explicar para você, meu camarada, o que eu não consegui dia desses, sobre como ouvir Alceu Valença aqui é completamente diferente de ouvi-lo no Rio de Janeiro, imagino até que seja mais diferente ainda ouvi-lo em Pernambuco. Bom, dá para te explicar com o seguinte: feijoada aqui em Sergipe, não é feijoada carioca. Ah, e carioca não como feijão carioquinha! Ouvir tango aqui, não tem o mesmo sentido que ouvi-lo em Buenos Aires. Ou seja, é ver Fla X Flu no Batistão... Ou Vasco e Flamengo no Couto Pereira. É diferente. Assim, como o forró e as festas juninas no Rio nunca, mas nunca mesmo serão tão boas como as festas sergipanas. Alceu é Alceu em qualquer lugar? Tango é tango em qualquer lugar? De certa forma, sim. Mas o sentido do não dito é outro.
Aliás, tenho ficado muito com o não dito ultimamente e me pergunto até que ponto o não dizer fala mais do que as palavras. É como esquecer de regar as flores que você não tem no jardim? Pode ser. Isso só entrou aqui, pois achei uma frase bonita. Pois o sentido, o sentido é o do não dito. Acho que o sono bateu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um caminhante

Ontem, com que um costume gostoso como vento no rosto e cabelos, saí para caminhar um pouco à noite. Lembro-me de que quando eu morava no Rio de Janeiro e estava com a mente carregada, estressado com algo ou mesmo pensando na pesquisa, eu ia caminhar. Muitas vezes essas caminhadas se estendiam de Mesquita até Nova Iguaçu. Parceiro fiel era o Gustavo que, quando não estava com preguiça, ia comigo papeando sobre nossa infância e futuro.
Algumas outras vezes, raras, por sinal, meu pai me acompanhava e percorríamos as ruas da nossa cidade como andarilhos desfocados – eu ainda era magro e ele já pançudo. Curioso de pensar minha relação com Alvaro e Cristina, meus pais. Esses dias, me bateu saudade forte dos dois. Minha mãe anda feliz e chateada ao mesmo tempo. Feliz pois semana que vem vou ao Rio de Janeiro e ficarei por lá, uma semana, chateada, pois vou à trabalho, no máximo dormirei no quarto que era meu.
Mas sobre a caminhada de ontem. Meu celular tocou e era meu pai. Falamos rápido um com o outro, me deu certa angústia isso, muito por ter parecido que eu não estava a fim de falar com ele. Depois que terminei meu trajeto, sentei-me num banco de praça e liguei de volta, uma boa conversa tivemos, como se ele estivesse ali. Ouvia a voz da minha mãe ao fundo perguntando se eu já tinha caminhado.
Outros momentos interessantes de andarilho era no Centro do Rio, eu percorria feito criança as ruas e avenidas para ir à Universidade. Gostava daquilo, saía mais cedo simplesmente para visitar os Sebos, as Lojas de Vinis, de Instrumentos Musicais... Me perdia nos pensamentos. Hábito que cultivei de criança, quando ia com a minha família passar férias em Paquetá, era a de olhar um bom tempo pro alto e ver os prédios altos da Carioca, da Cinelândia e por aí vai.
Gostava muito também de me sentar em algum boteco com amigos e beber um pouco antes de pegar o ônibus e cortar a Av. Brasil... Tempos depois, decidi voltar para casa de trem. Caminhava pelas noites quentes rumo a Central do Brasil para pegar o Central X Japeri. Gostava de observar as pessoas, cada uma voltando do seu lugar. Tudo era uma grande caminhada e eram nessas caminhadas que nasciam as idéias, floresciam os pensamentos. Como ontem floresceram alguns.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Hora do balanço: balançou?

Semanas e semanas corridas – e a correria há de continuar até o recesso de natal, quando, enfim, poderei rever minha família. Mas no fim do corredor já dá para fazer um balanço desses seis meses longe do Rio de Janeiro.
Fuçando as coisas: papéis amarelados, sons e cheiros, encontrei numa pasta perdida no computador uma série de vídeos e fotografias de quando vim prestar concurso para a Universidade Federal de Sergipe. A história, acredito que já contei por aqui. Mas há um outro lado...
Quando peguei o avião para Aracaju – eu nem lembrava disso até ver a fotografia em questão – saí com duas malas de casa. O que me chamou atenção hoje no remoer da memória, é que uma delas era apenas de livros, eu falarei mais sobre isso a seguir. Vai um copinho de cerveja?
Os vídeos que registrei são engraçados, pensei comigo: “farei um documentário sobre minha aventura” – não, eu não pensava em ser aprovado, queria apenas testar meus conhecimentos adquiridos na graduação e no mestrado, já que acabara de entrar no doutorado e pretendia, com a bolsa da Capes que eu havia conseguido, fazer um curso mais tranqüilo do que foi o de mestrado, talvez, um sanduíche na Espanha ou coisa do tipo. Os vídeos serviriam então como registro da aventura e uma forma de escape para a pressão que vinha de fora.
Semana passada, recebi aqui em Aracaju duas pessoas importantes na minha formação acadêmica, meu primeiro orientador, Marcus Cruz, e minha orientadora no mestrado e no doutorado, Andréia Frazão. Foi uma experiência nova, eu os recebi não como meus professores, mas como colegas de profissão! Talvez, tenha sido esse um dos momentos mais importantes da minha carreira acadêmica e, com certeza, nunca esquecerei!
Quando revi os vídeos hoje, lembrei das palavras de incentivo dos dois quando vim fazer as tais provas de títulos apenas para tentar, enquanto eles e outras pessoas achavam que eu iria conseguir. Na mala, diversos livros clássicos de História Medieval. O interessante, é repensar naqueles dias que caminhei só por umas ruas da cidade, meio perdido, meio achado, ou pensar nas pessoas que conheci naqueles dias e acabaram se tornando meus amigos.
O engraçado é pensar que agora estou aqui olhando um céu azul de doer os olhos, avaliando a saudade, buscando o sentindo do por que querer saber de mais nessa vida. Por que querer saber demais?
Há oito meses eu saia de casa com as tais duas malas, dois meses depois, saí de casa e me mudei pra cá, ontem lá, hoje aqui... amanhã?


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quando uma cidade entra nos traços do seu verso...


Uma chuva fina molha a madrugada em Aracaju. Abro as janelas da sala vazia e deixo que o vento fresco venha carregado como suor. Meu rosto se banha com gotículas de lágrimas do céu. Deu no jornal da tarde que poderia chover na capital.
Em minhas mãos a taça trêmula de vinho e só o som da minha respiração. Alguns carros passam de algum lugar que nem sei – pois eu não sei de nada nem de lugar. A companheira da noite se esvaziou. Pois no tudo o tudo é vazio – meu vinho se foi. A garrafa no canto, mas uma rolha para colecionar, minha assinatura, data e mensagem: Eu estava só no meu lar. Ensaio pegar minha flauta, o prédio alto não permite, não é hora para sons, mesmo que soprados como conversa ao pé do ouvido (Espere por mim, morena/ Espere que eu chego já/ O amor por você morena/ Faz a saudade aumentar). E eu penso em você. Como eu penso em você. Penso como um gemido. Meu relógio parou, talvez, por não ter sentido. Ou ter sentido que não é possível acelerar mais as horas do que o tempo nos permite. Pois agora o tempo passa lento. Uma hora nos separa. Mil, mil, mil e não sei quantos mil’s estão entre mim e você. Juntinhos.
Não há som, só há silêncio. Um pequeno silêncio que me possibilita me ouvir gracejando minhas palavras, eu mesmo me dizendo o que te digo agora: tudo. Tudo é aliteração. Metáforas sobre um tempo bom. Metonímias para o sol. O aroma do chileno que escolhi calmamente no mercado, a taça que guarda um borrão. Taça única que guarda um borrão no meu coração. Me valeu cada palavra de centavos o vinho que me derrama depois no chão.
Já não volto mais, pois se em meu verso incorporei você, pequena cidade puritana, significa que já estou deixando de lado o tesão pela grande meretriz. A preta me pergunta por telefone se serei eu feliz.
Ó Copacabana iluminada, o vai e vem da Atlântica e as putinhas na calçada. Ó Lapa flamejante com samba e noite enluarada! Madureira e Cascadura: eis meu fim! Temam por mim. Não há como gritar Abracadabra! Nova Iguaçu só em música de Chico Buarque na calçada que eu canto indo comprar água. Bem distante como o Cristo e revoada. A Mesquita já não ora mais por mim.
Aos meus pés a Adélia Franco invadindo os meus versos, ao longe o viaduto mudando as cores a cada hora, azul, vermelho, outra cor incerta. Em plena sexta-feira o teatro não se ilumina. Ó Tobias, não é assim que é a vida. Grandes peças: a vida é um stand up comedy? Não há bares a serem fechados, os garçons não nos expulsam dos botecos mal amados. Quero me entornar pela rua. Não há samba quarta-feira, nem Centro Cultural lotado, mas entraste em minha vida devagar e com recalque: um certo caldo. Não tiraste minha roupa, mas embala em sono denso, te vejo dormir e acordar, pois teu ritmo é lento. Mas tua tranqüilidade me é agonia, mas me conquista com jeito de menina querendo um primeiro beijo no colégio. Um primeiro amor sério. Parece que me pede madrugada, meu riso alto na rua, meu x se enroscando com teu ti, fiquemos cada um na sua – questão de bom senso. Pois se saio a noite te assusto esvaziando todas as garrafas da lua.
Preta não há chope da Devassa, o da Brahma, quando tem, é mal tirado. Nos resta a caipirinha num bar bem afastado. Não aceita cartão de crédito, débito nem cheque da mesma praça, mas é na beira do mangue e serve Germana no ponto, dosada com açúcar e limão, do jeito que você gosta. Me pergunta se estou triste? Ou meio magoado? Não... Nada! Isso é poema e, talvez, foi o chileno que acabou e me deixou mal humorado!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Esperanza Spalding: Um aplauso à esperança!

Este texto é cuidadoso. Deveria ser alocado no Retropleco, porém, ele já foi nascendo num tom meio diminuto, acabou caindo aqui n’O Ventríloquo e aqui ele ficará! Sem contar que, coisas da vida, quando pensei em atualizar o Retropleco, o caríssimo Aquino Neto fez isso por mim e com um ótimo texto, aconselho a visita! Mas vamos em frente...
Mais do que uma conversa que poderia ser regada por um bom vinho e com a vista do mar lá longe, minha voz de hoje tem um simples objetivo: falar sobre aquele tipo de música que toca fundo nossas almas. Que pode ser trilha sonora para uma boa noite ao lado do seu amor!

Este é o caso do trabalho da contra-baixista Esperanza Spalding, mais especificamente, seu segundo álbum, intitulado Esperanza, lançado em 2008. O disco já se abre para o mundo de maneira magnífica: Ponta de Areia (ótima composição de Milton Nascimento e Fernando Brant) voa na voz suave da instrumentista, compositora e cantora norte-americana.
A menina, nascida em Portland, no Oregon, em 1984, tem aquele swing jazzístico impecável que, me perdoem a comparação, pois é ousada e, talvez, desmedida, lembra um pouco Diane Schuur, apesar desse daqui achar que ela vai mais longe (e essa comparação se dá apenas em algumas canções e dependendo do tom da música). Esperanza não é só uma ótima contra-baixista, ela tem boa voz e até que canta bem no nosso bom e velho português. O “menina” é porque é menina mesmo! Mas a trajetória, cá para nós, é de medalhão do jazz. Professora mais jovem da história na famosíssima Berklee College Of Music (só perde, se não me engano, para o prodígio da guitarra Pat Metheny. Que me perdoe o grande Pat, mas sou mais ela, que beldade!).
Em 2008, Esperanza Spalding foi considerada pela revista Down Beat como a melhor contra-baixista acústica em ascensão! Não é mole não, meu irmão!
Seu segundo trabalho, o primeiro data de 2006 e se chama Junjo, tem umas levadas impressionantes de baixo acústico (Body & Soul, cantada em espanhol, exemplifica bem o que estou dizendo), sem contar, que todo mundo sabe que baixo acústico quando não é bem tocado se torna chato e você pode ter certeza, isso não acontece em Esperanza. É swingado (ver, por exemplo, I Know You Know e If That’s True), com harmonias belíssimas (Fall In e a já citada Ponta de Areia, para mim, uma das melhores, vale uma garrafa de tinto de primeira). Mas se você quer aquele jazz mais jazz, aquela coisa, início de noite, vestido vermelho, roupa nova, sexta-feira, te sugiro pensar em sair com a esposa ou o esposo para jantar ouvindo antes She Got To You!
Na volta para casa, aconselho a compra de uma garrafa de vinho tinto suave no caminho, abrir a porta para a amada (no caso das meninas, uma bela lingerie) e colocar para tocar Love In Time – a noite começará a aquecer e por que não uma dança na sala? Ô meu Deus do Céu!
Bom, a noite vai indo e o sol querendo chegar, mas a gente adia o amanhecer! Já imaginaram as possibilidades, não? Bem, eu faria muita coisa e quanta coisa!
O disco fecha como uma madrugada bem aproveitada: Samba em Prelúdio, ótima composição de Baden Powell e Vinícius de Moraes.

Mas se você é apenas um solitário, tudo bem, há espaço para seu estilo de vida por opção ou situação e, nesse caso, é uma sugestão bem tranquila: Aquela garrafa de vinho pode ser esvaziada na companhia da própria Esperanza Spalding e que companhia, hein?! Sente-se no sofá ou numa poltrona confortável, deguste seu vinho, acompanhe o encarte do Cd e aprecie o belo rosto dessa lindíssima negra! E todo mundo sabe que disso eu entendo!
Está aí mais um charme da música de Esperanza Spalding: sua beleza em todos os sentidos. Claro que gente feia também faz música bela e o inverso também é verdadeiro. Mas valei-me Deus, a mulher é linda! E toca um contra-baixo que sei não, aquele swing ali deve se prolongar noite adentro depois do show!

Brincadeiras sérias à parte. Vale o investimento o trabalho dessa moça. Até tentei baixar algum video pelo Youtube para ilustrar seu talento musical, mas deu erro, seguem dois links que aconselho uma olhada atenta:
Esse é uma montagem interessante com belíssimas fotos e ao fundo Ponta de Areia, na versão do Cd, tocando:
http://www.youtube.com/watch?v=e9sN3ySkkz0&feature=fvw


Esse é uma apresentação ao vivo no Brasil, no Tim Festival, acompanhada pelo grande Chico Pinheiro, que tocou um tempo com Pedro Mariano, e que estudou na Berklee College Of Music, assim como Jair Oliveira e alguns outros artistas jovens como ele. Inclusive, não é de hoje que músicos brasileiros se graduam na Berklee, temos o caso do ótimo Victor Assis Brasil e o impecável baixista Zeca Assumpção:
http://www.youtube.com/watch?v=nUcvLtTp9d0

Eu vou ficando por aqui, pois a madrugada já se foi para mim e é solitária como eu, por pouco tempo, é claro! Um brinde! E se possível, para você, com Esperanza, pois, morra de inveja: Eu já tenho a minha! E pode não tocar contra-baixo acústico, mas faz jorrar música e poesia da minha alma!

MySpace: http://www.myspace.com/esperanzaspalding

Site Oficial: http://www.esperanzaspalding.com/

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dá-lhe Potó

Eu sei que andei sumido. Nesse meio tempo tem muito causo para contar – serei breve! No momento estou numa pousada no Centro de São Luis, no Maranhão. Sobre a cidade e as aventuras que vivi ao lado dos medievalistas e grandes amigos Marcus Cruz e Leandro Rust, eu gastaria fios e fios de pensamentos, mas prometi ser breve.
Na minha segunda noite aqui, deixamos Rust dormindo no quarto e fomos tomar umas caipirinhas no La Pizzeria, restaurante anexo a outra bela pousada na Rua do Giz. Ficamos tão famosos no lugar, talvez, por termos acabado todas as noites com as garrafas de cachaça Seleta e com os limões da casa por conta das nossas caipirinhas, que tivemos até mesa cativa! Bom, esse é o lado belo da coisa, triste, triste foi o bendito (ou maldito) Potó que acabou com quase toda a minha estadia na cidade.
Vamos à aula de Biologia.
Segundo que li, o Potó (Paederus) quando em contato com a pele causa um queimadura forte na região, graças a uma toxina liberada em sua defesa (e em nosso prejuízo), o pessoal daqui chama de mijo... Fui uma vítima do Potó! A foto abaixo demonstra a fase tranqüila do incidente, pois, piorou meu chapa!



Tive uma reação alérgica, o pé inchou a ponto d’eu não conseguir apoiá-lo no chão. Eu era quase um Dr. House do medievalismo (apesar do problema do la Cogolla... Cogolla – essa piada ficou em São Luis entre eu, Marcus e Leandro!).

As fotos da “evolução” da “pereba” preferi não mostrar... mas ficou feio!
Bom, São Luis tem um charme diferente, uma beleza diferente e um ritmo diferente. O que não deve ser interpretado para mal. O diferente que digo não chega a ser o exótico. Fiquei apenas pelo centro da cidade, visitei apenas bares e confesso que gostei. O congresso foi bacana. Amanhã volto para casa, ainda com a canela doendo e o tornozelo inchado, mas vamos seguindo!
Disso tudo, o que mais me chamou atenção foi uma frase da minha mãe, quando liguei para o Rio de Janeiro pedindo informações sobre meu problema (ela é enfermeira): “Filho, estou doida para que você volte para casa...” e eu: “Poxa mãe, só vou ao Rio em dezembro...”. Ela então me responde com a maior naturalidade possível: “Não meu filho, eu quis dizer para o teu apartamento em Aracaju...”. É, se até dona Cristina já se acostumou com a idéia de que Aracaju é minha nova casa, quem sou eu para discordar! Dá-lhe Potó!


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Quando o corpo já não responde

Não é para se preocupar camarada, mas, o papo de hoje não é no botequim, não há cervejas geladas na mesa, chope com o colarinho cremoso. A prosa não se desenrolará madrugada adentro, com garrafas e mais garrafas de vinho espanhol colorindo a conversa e as lembranças.
Ao invés de samba no ouvido, é The Beatles que estou ouvindo, especificamente, Let It Be que, na minha humilde opinião, talvez, por ser um dos mais problemáticos, é um dos melhores, para mim: o melhor.
Também não vou fazer propaganda de remédio genérico, a fotografia (tirada na minha cozinha agora pouco), apenas ilustra meu estado atual de saúde. Não, não é gripe suína, já fiz o exame, rios de dinheiro correram da minha conta. No fim das contas, o que faz falta mesmo é a comidinha da mamãe e seu cuidado, mas... Paciência! Os genéricos são porque, desde que começou essa onda, minha mãe – que é enfermeira – sempre preferiu comprar remédio pela fórmula que pela marca.
Ainda não me derrubaram. Estamos na luta! Uma tosse maldita atrapalha meu sono, minha voz – que sempre foi rouca – está uma coisa meio Darth Vader. Minha cabeça dói e sei que não é chifre! Meu humor está abalando. Nem um vinhozinho sequer posso degustar. Domingo que vem viajo para o Maranhão, espero melhorar antes.
Tudo isso, esses eventos que já duram uma semana, mais ou menos, apenas me fizeram pensar o seguinte: o corpo já não responde.
“Ô papo de velho!”, me diria você, nem isso, respondo eu. A questão é: quanto mais maltratamos o corpo, mais frágil ele fica. Está certo que nunca fui um louco varrido, porém, noites em claro (várias e várias), livros e mais livros depois, sereno, poesia e música no exagero noturno deixam a gente assim. Que saudade da preta, com ela em casa eu ia sossegar mais e se não, ao menos, uma coisa é certa, teria alguém para cuidar de mim – cafuné, às vezes, é o melhor remédio!
O bom é que ando dormindo cedo, ficando mais na rede da varanda aqui do apartamento, emagreci um pouquinho, dei ar ao meu fígado, e estou lendo um pouco mais do que de costume. Enquanto o fígado suspira aliviado, agora é o estômago que resmunga uma dorzinha aqui e outra acolá. Esse excesso de antibióticos, drogas e afins, está esmagando o coitado. E olha que há tempos ele não se manifestava.
Não é, simplesmente, saudade do Rio de Janeiro, da família, nada disso, isso já acostumei, a questão é: Quando o corpo já não responde.
Aí fica um pedido, parceiros: caso eu demore demais a atualizar o papo, dêem uma ligada aqui para casa, peçam ao porteiro para dar uma interfonada para mim, e se caso um cheiro estranho emanar por debaixo da porta do meu apê: fodeu, apodreci e vocês nem viram!?
Sacanagens a parte, nada vai me derrubar agora, ops, tropecei. Bom, vamos à luta, pois, no fim das contas, a vida é the long and winding road.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por toda a eternidade

Sem perceber já era tardinha
O sol beijava a Baía
E ao longe, Niterói se transformava
Num emaranhado de luzes refletidas na Guanabara.
Como dois lábios que se tocam
E dizem tudo sem emitir som sequer
Nos encontramos numa tarde
Para nunca mais nos perder.
Nunca mais nos abandonarmos
E vivermos um amor de verdade
Juntos, meu bem,
Por toda eternidade.

Parece que digo te amo
Como respiro
Te amo
Eu falo teu nome cantando no tom.
Desde quando você está comigo
O mundo é muito bom.
Parece que digo te amo
Quando respiro: te amo.
Desde quando você está comigo
Tudo no mundo é tão bom.

domingo, 27 de setembro de 2009

Domingo, sinais de depressão: Programa Silvio Santos

“Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá... Agora é hora de alegria, vamos sorrir e cantar. Do mundo não se leva a nada, vamos sorrir e cantar. Sílvio Santos vem aí. Olé, olé, ôlá...”.
Hoje é domingo e me vem uma sensação de vazio. Para mim, domingo sempre foi sinal de vazio, ao contrário do tradicional “primeiro dia da semana”, sempre achei que ele tinha mais cara de último do que de primeiro. Dia de dormir cedo, pois tinha escola no dia seguinte. O futebol não se estendia no campinho. Era dia de culto na igreja, Fantástico na TV e claro: Programa Sílvio Santos: “Quem quer dinheiro?”, “Roque!”... A marchinha que citei acima, composta, em 1965, por Archimedes Messina, para esse mesmo Programa Sílvio Santos, só que na Rádio Nacional, era o final dos tempos para mim.
Hoje, domingo, estou só. Algumas coisas, alguns sinais em mim muito me preocupam, creio que estou ficando deprimido. Espero estar errado, mas acho que não estou.
A falta de sono que me corroem os olhos e corpo ou, quando ele vem, as noites mal dormidas, o acordar tarde sem vontade de sair de casa e ver o sol, sentir o vento, as frases curtas, as leituras secas, o cabelo desgrenhado e a música clássica no som, tudo me indica que estou ficando deprimido. O sorriso forçado e a angústia que precede a volta para casa e o meu silêncio, tudo me indica que estou ficando deprimido.
“A lua de mel acabou”, já dizia um amigo, também recém chegado aqui. O momento é delicado, as observações já foram feitas, os primeiros choques, as decepções, os alívios e felicidades, tudo num furacão de emoções e pensamentos. Palavra é pensamento. Discurso, para mim, sempre foi prática. Ficarei aqui, não restam dúvidas ou fatos contrários. Como disse, a primeira impressão – boa – já se foi. Fica agora o olhar atento de alguém que conhece outros lugares, percorreu vários caminhos até chegar aqui e até aqui foram muitas vozes que emiti. No balanço final: ponto para mim. Estou onde deveria estar.
Não vejo TV, minha ligação com o mundo é virtual. Com o Rio de Janeiro é o jornal O Globo que leio on-line, sobre Aracaju, que me perdoem todos, fico sabendo pelos alunos. Não que não me interesse, apenas não tenho tempo: sinal de que estou ficando deprimido. Pois sempre administrei bem meu tempo e sempre tive tempo para tudo. Na verdade, como bem observou minha mãe um dia por telefone, ao me questionar se eu queria comprar um aparelho de televisão, a caixa mágica, desde menino, nunca me chamou muita atenção. A televisão NÃO me deixou burro, muito burro demais! Mas pelo visto, o “sorvete me deixou gripado pelo resto da vida...”.
Não sei por onde anda o Gugu Liberato, se o Roque ainda é vivo, nem qual a nova novela das oito da Globo. Sei, pela internet, em algumas chamadas de matérias, que aquela menina bonita pra burro, Taís Araujo, é a primeira protagonista negra de uma novela das oito da emissora, bom para ela, bom para quem vê. Acho que sim. Ah, sei que ela é mais uma Helena do Manoel Carlos – Paciência.
Não sei se é qualidade ou defeito meu, porém, já fazem, praticamente, seis meses que não sei o que é uma novela. Me lembrei agora da novela infantil do SBT, Carrossel, como eu adorava aquela novela quando criança (eu sei que era um pé no saco, mas, acredito que quem tem hoje a minha idade curtiu pra caramba): “entre duendes e fadas a terra encantada espera por nós, abra o seu coração, na mesma canção, em uma só voz...”. Não sei de quem é a música, tampouco, tenho paciência no momento para pesquisar no Google, mas achei no Youtube a abertura, taí, quem quiser se aventurar e lembrar a infância, que veja depois de ouvir o que ainda tenho para dizer hoje com o sol quase raiando no mar.

Ontem, acordei às 7:30 da manhã, pensei “vou dormir mais um pouco”, meu corpo doía, meus ouvidos também, quando acordei estava envolto ao meu colchonete inflável vazio, com o corpo mais dolorido do que antes. Ao mesmo tempo o telefone tocou, já era 12:20, fui almoçar fora com um amigo do Departamento de Educação Física da UFS (o Kiko) e seu orientando, papo alegre, as horas se passaram, quando vimos já eram 17:00 horas. Voltei para o meu apartamento, tomei uma ducha, fui pesquisar um pouco para o doutorado. O telefone toca, um amigo do Departamento de História (o Augusto) me convidando para jantar. Aceitei. Confessei minha tristeza no caminho de volta para casa. Acabamos num bar, que lembra uma coisa meio carioca, no Shopping Jardins, um chopinho, conversas sobre a infância, já era domingo, meia noite, cedo para um carioca, mais cedo ainda para um angustiado pela solidão.
Uma idéia na cabeça e um celular na mão, este tem sido meu lema, liguei para o Kiko, como diz Ana, meu anjo da guarda aqui: “basquete na orla, está afim?”. Até as três da madrugada batemos bola, fizemos cestas, disputamos partidas, quase vimos o sol nascer. Bom momento – momentos bons acabam.
Mas hoje é domingo. Famílias se reúnem para macarronadas, churrascos, conversas no portão, é dia de futebol às 16:00, Fluminense no Maracanã, tão mal das pernas como eu de sorriso. Porém, eu estaria lá com meu manto tricolor, cantando “A benção João de Deus” ao lado do Thiagão, chope depois na Tijuca. Mas hoje é domingo e não ficar bem no domingo, aqui ou em outro lugar, é algo que, pelo menos, me parece familiar. Já ouço os ônibus voltando a rodar, a vida roda novamente, são 4:33 da manhã – é hora desse daqui se retirar e tentar descansar um pouco. Inté.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quatro meses longe de casa...

Hoje, dia 24 de setembro de 2009, completa quatro meses que saí do Rio de Janeiro com nove caixas grandes de livros, duas malas, uma mochila e lágrimas nos olhos. Faz quatro meses que vi pela última vez as praias, as ruas e avenidas, o trem, o metrô e Mesquita.
Deixei no Rio de Janeiro, minha família, uma noiva linda, amigos e raízes. Deixei para trás a correria carioca, o morro, o samba, o choro, os botecos e um pouco de poesia. Lá ficaram também problemas de dinheiro, aperto financeiro, sonhos sempre adiados e mais livros. Ficou no Rio de Janeiro um poço de saudade que derrama aqui todos os dias e me lava a alma quando sinto o vento nos cabelos pretos, pretinhos, como diria minha Ana.
Deixei meu pai e minha mãe orgulhosos, mas sem um pedaço de si. Meu quarto não é mais meu e minha casa não é mais minha: é a casa dos meus pais que, agora, quatro meses depois, é lugar de visita para mim. E que logo, logo, chegarei com sorriso aberto. Um mês, dois meses, mais ou menos para eu aparecer por lá.
No Rio de Janeiro, deixei, nessa mesma casa, fotografias que há quatro meses rememoravam apenas meu rosto quando menino, agora, para meus pais e, também, para mim, quando ali pisar, rememorará o tempo em que eu vivia ali e corria de pés descalços pela terra macia e fresca do quintal. Um tempo em que me sentava debaixo das mangueiras, abacateiros, jaqueiras, pensando, sonhando com o futuro: o futuro agora me relembra o passado.
As mesmas ruas em que eu caminhava naturalmente com os cachos ao vento, um sol quente corando o rosto, seja indo ao açougue do “Manéu” comprar contra-filé, seja para ir dar aula ou mesmo um pulo na casa do Elber para estudar música, conversar sobre música e vida, ficaram há quatro meses no Rio de Janeiro.
Há um mês não choro. Há um mês, aos poucos, fui me acostumando com a rotina que me cerca agora: reuniões departamentais, comissões de eventos científicos, viagens para congressos, orientações, aulas, mais reuniões, política acadêmica, vaidade alheia, squash, conversas noturnas com amigos, garrafas de vinho e tulipas de chope. O vazio vai se acomodando no peito, de pouquinho em pouquinho, e vou entendendo, assim, que ficarei por aqui por muito tempo e, enquanto isso, aguardando Ana. Há, ainda, muitos espaços vazios para se acomodarem no peito e na alma, disso eu sei.
Choro agora enquanto ouço Candeia cantado por Teresa Cristina. Talvez, não esteja chorando nem por tristeza, nem por saudade, apenas por quase não chorar mais. Curiosidades do tempo. Choro, talvez, por racionalizar a saudade que me acua dentro do apartamento entre livros, discos e a flauta que, ultimamente, tem soprado apenas canções que falam do meu Rio de Janeiro.
Coisas da vida. Ontem, ao término de uma aula minha, uma aluna veio me perguntar como é sair de casa para tão longe (ela está pensando em fazer concurso para outro estado). Fui enfático: é ruim. Você chorará todos os dias. Haverá sempre um aperto no peito, um nó na garganta quando falar da tua terra, dos teus pais, da sua origem. Mas você se acostuma.
O conselho que a dei, foi o mesmo que ouvi, certa vez, do Kiko, no período em morei com ele aqui em Aracaju. Lembro-me bem da conversa e ainda hoje, já quatro meses depois, ainda marejo os olhos como marejei naquele dia em sua cozinha.
E continuo entre livros e discos. Leitura e música são coisas que não me largam nem na lua. Hoje, quatro meses depois de sair do Rio de Janeiro, cinco dias depois de ter ouvido sua voz, meu pai me ligou para matar saudades. Não comentei que tenho dormido mal, que tive febre no domingo – resfriado mal cuidado, talvez, ou mesmo a própria saudade – me perguntou o que eu estava fazendo: estudando um pouco. “A coisa continua, né, filhão? As leituras não param!” disse ele rindo.
Ontem, foi aniversário da minha mãe. Liguei para ela e desejei saúde. Dei beijos e saudades. Um minuto e pouco de conversa – não havia muito que dizer, realmente. As palavras já não tem bastado muito.
E tem sido assim com todos que me ligam do Rio de Janeiro. Não há muito que conversar. Se eu prolongar um papo por mais de dois minutos, a garganta se fecha, me falta o ar e as palavras se transformam em lágrimas. Até com meus pais, meu primo, minha Ana, até com eles as conversas tendem a serem curtas agora. Os olhos doem, uma pressão horrível vai trazendo de forma dolorida as lágrimas salgadas como água do mar.
Me refugio por aqui, atrás das muitas vozes que crio n’O Ventríloquo. Me acalmo com os comentários dos amigos, dos desconhecidos, de quem passa por aqui e deixa uma voz que seja, um sonzinho que seja, algo que emita um palpitar, uma conversa. Desde o início, há quatro meses, quando se concretizou o primeiro dos sonhos profissionais: ser professor universitário federal, seguir com os estudos, agora como docente, em História Medieval, desde o início, eu sabia que não seria fácil: mas quem disse que tem que ser?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carta a São Sebastião do Rio de Janeiro

Vista do Rio de Janeiro - Foto de Bruno Alvaro

Querido Rio de Janeiro, há quatro meses te deixei com algumas folhas caindo no chão e um vento frio prenunciando o inverno. À sua guarda, deixei meus pais, minha noiva e meu primo chorando aos pés do Galeão.
Prezado Rio, não pense que não te quis ou não te amo mais. Porém, foi a força do destino e a vontade de mudança que me trouxeram para cá. O que não significa que não haja um dia sequer que eu não pense em você, nas tuas praias, tuas matas, as favelas e o teu sol.
Confesso que ainda cultivo hábitos cariocas como a cerveja gelada e o futebol. Mas, nas mesas de bar, sinto falta dos brindes animados da juventude no Centro Antigo, em pés sujos como o Bar das Putas e o Araponga. Meu Rio de Janeiro, vou eu em alta madrugada te exaltando por aqui!
Sei que o nosso relacionamento sempre foi confuso como o chocalhar dos trens lotados que cortam tua Baixada Fluminense e teu subúrbio. Tantas cascas duras em Cascadura e Madureira madrugueira. Como eu gostava de ir ver Ana em Fazenda Botafogo, aqui e ali em Acari. Depois seu riso tão branco e amável em Del Castilho e sentar na praça pr’á nos divertir – que saudade do Subúrbio!
Da Zona Norte guardo as noites na Praça Vanhargem, na Tijuca, dos amigos, da sinuca! A Lapa no Centro, a Lavradio lotada, a gafieira no Rio Scenarium, a caipirinha na frente do Circo Voador. Que saudade do bondinho de Santa Teresa, de sua vista realeza e dos seus muitos bares acesos.
Na Zona Sul me perdia com as luzes de Copacabana, com a beleza da Urca, com o charme dos cinemas de Botafogo.
Meu caro Rio, há quatro meses estava eu sentando no Amarelinho comendo codorna recheada, degustando um bom chope gelado e ao lado da minha bela mulata. Há quatro meses. Saímos para caminhar abraçados depois na Cinelândia, com uma lua grande no céu e um ventinho fresco que chamava a madrugada, ameaçamos uns passos rasos no meio da praça... Cheios de graça.
Amigo São Sebastião do Rio de Janeiro, minha flauta andou muda, mas, ainda ontem, ensaiei Corcovado e Futuros Amantes só pensando em ti. Uma coisa meio tamborim é meu coração por aqui, se eu ouço um chiado na fala de alguém, me sinto um pouco aliviado de não ser o único carioca nessas terras distantes daí!
Uma coisa meio Vinicius de Moraes essa minha carta para ti, eu sei! Mas assim como o poetinha quero eu voltar pr’aí.
Um dia, quem sabe, meu Rio de Janeiro, minhas cartas diminuam em suas linhas o peso que tem o assunto da saudade. Quem sabe?
Eu só sei, que, por enquanto, vou levando e sonhando. Ouvindo samba. Te cantando, sozinho por aqui. Agora, meio mórbido e nostálgico, eu queria muito te pedir se acaso eu padeça, morra aqui, que você me aceite, me receba novamente em teus braços, pois no fim da minha vida, é a terra carioca que eu quero para mim.
Meu Rio de Janeiro, um forte abraço, eu demoro, mas não tardo, a aparecer por aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A gente vai ficando velho... (Os sinais do tempo)



Os indícios da velhice são curiosos. Apesar dos 26 anos que me caem até bem, a vida sossegou para mim. Assim começo a prosa de hoje: reflexivo e engraçado até! Alerto que nosso bate papo vai ao som do belíssimo disco A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro de Moacyr Luz sendo acompanhado pelo maravilhoso sexteto de choro Água de Moringa – qualquer dia desse falo sobre o trabalho no blog Retropleco.
Bom, eu estava falando sobre os sinais da velhice, no meu caso, vindo mais cedo. Ontem – ontem já, não é? É madruga, então sim! – fui dar minha rotineira aula de História Medieval I na Universidade Federal de Sergipe, cheguei um pouco mais cedo, pois queria atualizar algumas coisas, me sentar um pouco na minha sala, relaxar no... silêncio?!?!
Na quarta-feira estavam montando um palco próximo ao prédio do Centro de Educação e Ciências Humanas, quando passei de tarde com um amigo, não demos muita bola, nem sabia o que era e nem quis saber. Descobri hoje! Uma festa universitária, até aí, nada demais para mim que fui freqüentador assíduo com meu amigo Thiago Porto, na época do IFCS-UFRJ, das festinhas promovidas pelo CAFIL e outras pela galera do PSTU. Bom, nordeste, forró. Rio é samba. Tanto um quanto outro, penso eu, combinam com sexta-feira a noite. Penso eu. Mas não é bem assim...
Enquanto ainda estava silêncio, relia eu Ano 1000, Ano 2000: na pista dos nossos medos do Georges Duby, quando, de repente, tudo treme! Sanfona pr’um lado, arroxa pr’o outro... Desci, faltavam ainda uns 30 minutos para minha aula, encontrei uns alunos e uns orientandos. Conversa vai, conversa vem, percebi que eles estavam mesmo com vontade de curtir um forró do que ouvir sobre História Medieval – natural isso. Acontecia comigo, só que por causa de rock ou mesmo samba. Liberei os que estavam a minha volta, fui para sala lecionar para os poucos que ficaram comigo e abonei as faltas até daqueles que nunca apareceram.
Mas não é por isso que me senti velho. Não é contraponto: energia deles, juventude deles (que é a minha também, já que alguns quase têm a minha idade) e cansaço meu. É uma coisa diferente. Uma coisa do sossego. Já não tenho mais o mesmo pique. Agora você até me questiona: mas você é tão jovem! Sim, concordo. Mas viver como vivi e o que vivi. Os abismos que me lancei. A entrada na universidade cedo demais. O mestrado. O doutorado. Encontrar Ana: sossego. Acho isso engraçado. Ensaio uma saída com o Kiko: desisto. Até porque ele também é assim! Vamos ni ritmo coca-cola de ser: quando abre a garrafa, muito gás, depois, vai ficando xoxo.
O primeiro sinal de que se está envelhecendo é quando sossegamos o coração. Quando ser quer o samba em casa. Quando se quer a flauta serena e não mais ponteando em saraus madrugueiros. Gustavo que o diga! Já viramos noites tocando violão e flauta e bebendo, bebendo e bebendo! Thiago Porto que o diga: quantas noites não vimos nascer no Abracabra? Na Lapa? Ana que o diga: quantas vezes não nos aventuramos sem lenço e sem documento pelas ruas do Rio de Janeiro? Quantos carnavais? Quantas vezes não dancei a valsa do trocar de pernas?

O samba agora está em casa. De vez em quando até uma cerveja com um ou outro antes de voltar para o mingalzinho de cremogema. Mas é de vez em quando. O samba está em casa.
Nessa mesma quarta-feira do palco sendo montado que anos atrás não me passaria despercebido, aconteceu outra coisa curiosa (o segundo sinal da velhice). Chegou para mim, LP raríssimo. De um lado, Tom Jobim tocando pela primeira vez em disco Águas de Março, inclusive, única gravação que ele só canta e não toca instrumento nenhum (já fica raro por isso, sem contar o andamento da canção, completamente diferente do comum). Do outro, um tal de João Bosco, com seus 24 anos, desconhecido ainda. Bom, se o João Bosco, ainda era desconhecido nesse disco, um mero, digamos, sonhador, é raro mesmo e antigo!
A bolachinha, chamada O tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco, faz parte de uma série intitulada Disco de Bolso, uma tentativa, que durou apenas mais um número (com Caetano Veloso de um lado e um estreante chamado Fagner de outro), da revista O Pasquim de impulsionar o lançamento de novos artistas. Foi vencido pela censura ditatorial dos anos 70 e pelo mercado fonográfico que já era massacrante naquela época.
Bom, a revista-disco raríssima é digna de todo meu orgulho. Eu tinha que mostrar para alguém que entendesse. Kiko, não tinha dado as caras no dia. Gustavo estava no Rio de Janeiro. Minha Ana, atarefada com coisas do nosso casamento, não ia ouvir direito e sacramentar minha velhice. Me restava o grande Augusto, gaúcho que chegou à UFS quase ao mesmo tempo que eu, umas semanas depois, para lecionar Teoria da História e que tem sido grande amigo aqui. Além de ser um augusto (sempre faço esse trocadilho com seu nome) conhecedor de vinhos e música boa. Nesse caso estou bem: somo ele e Kiko e tenho uma enciclopédia de boa música! Sem contar que de um lado meu amigo carioca assistiu show antológicos que eu não me canso de pedir que ele conte e reconte e, do outro, o gaúcho, tem no currículo da vida (esse é melhor que qualquer Lattes) nada mais nada menos do que dois shows ao vivo do grande Gonzaguinha! Continuando...
E ficamos os dois, ali, no carro, olhando o disco, a revista, os olhinhos brilhando, como se fosse a coisa mais fantástica das nossas vidas! Várias interjeições gaúchas e cariocas se misturando ao olhar atento para um Tom Jobim sentado recostado numa árvore, tocando flauta transversa, lendo uma partitura, estampada na parte de trás do biquíni de uma mulher vantajosa (a foto acima). Estamos ficando velhos.
Terceiro sinal: Eu vou casar. Prefiro a poesia em casa, com a cerveja gelada em casa, com a preta em casa. Vou casar. O sossego prova isso. A vontade e o cheiro do sossego. As cadeiras de praia no domingo. O pão quente de manhã. A saudade apertando. A lembrança de um tempo que vai ficando para trás... Lembrança que não é saudade, é apenas lembrança. E o sol só nasce na minha cama agora: deixo a vida solta para meus alunos, já tirei meu time de campo!
Aliás, querem coisa mais velha que ficar lembrando as coisas? Quer coisa mais velha que ser um ventríloquo, puxar conversas longas e escrever e-mails enormes? Pois então!
O quarto sinal, eu teria vários, mas esse é o último, vem inversamente. Porém, pode ser o quarto. Dia desses fui almoçar na casa de um aluno. Uma festa. Um dos dias mais alegres e familiares que tive em Sergipe. Aquela família grande, tipicamente nordestina, receptiva, carinhosa e brincalhona. Lembrou a minha e isso me fez ficar à vontade (como se fosse difícil). Pois bem, eis que falta gelo para a cerveja! Aventura! Pegamos o carro do pai do Aquino e fomos atrás desse elemento fundamental para qualquer cervejeiro (tirando a cerveja, é claro). Rapaz, eu não lembrava como era gostoso essa coisa de pegar um carro de pai emprestado e ir pelas ruas sem saber o rumo certo. O que me pareceu era que o carro era tão desconhecido para mim quanto o era para os demais ocupantes! Liga rádio. Não Liga rádio! Como se liga o rádio? E esse negócio do gás natural? Aventura! Na última voz d'O Ventríloquo, eu rememorei meu encontro com o Douglas Cezário e narrei a história do fusca do avô do Bruno Henrique (nosso guitarrista) e dos outros carros da nossa adolescência. Bom, é sinal de velhice! Sinal de velhice maior foi ter ficado super cansado após a busca pelo gelo. É, tempos outros, que venham outros para me substituir!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Memórias musicais

Estava aqui pensando no que falar, quando, de repente, me deparo com meu grande amigo Douglas Cezário no MSN e dá-lhe perguntas: “Como vai o Rio de Janeiro?” “Está chovendo, está sol?”... Só para pontuar bem o contexto, conheci o Doug, lá pelos idos de não sei quando. Me lembro que eu estava num sítio, em Xerém-RJ, que pertencia a PIB de Presidente Juscelino (igreja que minha família fazia parte, na verdade, ainda faz) conversando com o Bruno Henrique Louroza, amigo de mesma congregação, ele me falou de um carinha da PIB de Mesquita que cantava pacas e tocava razoavelmente mal (ele vai ficar uma arara, mas... apesar de ter estudado vários instrumentos, Doug sempre foi enrolado com as notas e acordes)! Me disse que esse cara estudava Zootecnia no Colégio de Aplicação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e tava precisando de um baixista para tocar com ele num festival de alunos de lá. Balancei a cabeça e fui jogar bola. Na época, pasmem, eu cursava o último ano do 2º Grau em Administração de Empresas! Não me lembro bem porque eu estudava aquilo, mas já me preparava para o vestibular em Sociologia na UERJ.
Semanas depois, me lembro de estar dormindo em casa quando bate no meu portão o Bruno Henrique com o fusca do avô dele (eu tinha 15 anos na época e ele 16), me dizendo para pegar um caderno pautado (caderno de partitura) e ir com ele até a PIB de Mesquita, mas tinha que ser rápido, pois, para o avô dele, Bruno estava lavando o carro na frente de casa! Ainda não entendi o motivo do caderno de partitura, já que ninguém lia merda nenhuma!
Ainda meio zonzo, coloquei uma bermuda e entrei naquele carro marrom sem entender muita coisa, mas aventura é aventura quando se tem 15 anos e pegar o carro do avô emprestado, um fusca de único dono, o avô do Bruno, e que foi comprado zero quando ainda era carro de rico (no tempo da vovó virgem), era aventura das boas. Fomos nós para a PIB de Mesquita – ah, vale lembrar, meio tardiamente nessa altura da prosa que PIB é a abreviação de Primeira Igreja Batista. Ou seja, é a primeira igreja fundada no local. Assim, no município de Mesquita tínhamos várias PIB’s nos diversos bairros, eu e minha família e o Bruno Henrique (indo e vindo entre a PIB de Mesquita) pertencíamos a do bairro de Juscelino Kubistchek.
Encontrei Douglas Cezário, jovem alto e magrelo, com sorriso grande e voz engraçada sentado esperando. Nos apresentamos: “Esse é o Bruno Alvaro” disse o B. Henrique. Influências para cá e para lá, similitudes. Me mostrou duas canções, lembro de uma ou pelo menos do refrão: “linda, rosa, flor...”. Eu ri. Mas gostei da voz dele. Puta voz aquela, uma coisa soul music que eu ainda não tinha ouvido de um garoto da nossa idade, apesar dele ser um pouco mais velho que nós, um, dois anos, talvez. Mas lembro que já tinha carteira de motorista e pegava o carro do pai de vez em quando para andarmos por Mesquita... anos depois ganhou de presente um Chevette hatch que era a alegria da galera! Mas voltando ao papo...
Explicou o motivo do convite. Precisava de um baixista que tocasse com ele e nosso amigo em comum na UFRRJ no dia seguinte. Aceitei. Eu havia estudado violão com o professor de teclado dele, o Renato, havia um certo conhecimento do que a garotada das igrejas Batistas andavam fazendo, eu já tinha ouvido falar dele, talvez, já tivesse ouvido falar de mim. Fizemos o arranjo. Ensaiamos uma vez apenas. Dormi na casa do Bruno Henrique e o encontramos na manhã seguinte para pegar o famoso ônibus da empresa Ponte Coberta: Nilópolis X Seropédica. Viagem longa, muito longa! Era a primeira vez que eu ia na UFRRJ, anos mais tarde, já mestrando, participei de uma Anpuh regional lá, 2008, e me lembrei com carinho daquele dia de música estudantil. Ganhamos o 2º e 3º lugares. Muitos anos depois, eu contando para Ana, minha futura esposa, qual não foi a surpresa? Ela conhecia a história através de um amigo que havia estudado no Colégio de Aplicação com o Doug e estava lá no dia! Coisas da vida!
O resto é história! Foram muitos sábados e domingos carregando amplificador, caixas, guitarras e pratos! Entrei para a universidade um ano depois, Sociologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, acabei desistindo após alguns meses e indo cursar História, foi a primeira decisão correta na minha vida, a primeira de muitas! Douglas entrou um pouco depois para Biologia, escolha natural. Gostava da área, era bom naquilo, havia feito um bom 2º Grau, numa boa escola... Como eu disse: o resto é história!
Certo dia, eu estava passando um final de semana em Paquetá com Ana e resolvemos pegar a barca e atravessar a Baia de Guanabara para ver no extinto Palácio (cinema de rua maravilhoso no Rio de Janeiro que acabou sabe Deus por qual motivo), Batman – O Cavaleiro das Trevas. Quem eu não encontro lá, com uma nova namorada? Um papo rápido e ele diz que tem algo importante para contar...
No fim da sessão, na pressa de pegar a barca para voltar à Paquetá, ele me puxa rapidinho pelo braço e diz: “Vou ser pai, meu caro... de gêmeos!”. Fiz uma cara de surpresa... Ele riu, aliás, nunca vi o Douglas puto com alguma coisa! Sempre sorrindo para tudo e para todos! Vê sempre o lado bom das pessoas e das coisas. Levando em consideração que os rebentos eram com uma antiga namorada e ele, como sempre, já estava com outra: à procura do amor, como ele mesmo sempre dizia!
Dia desses, me vem ele dizendo que está namorando uma prima minha: “Cara, sou teu primo!”... E eu: “que merda, Doug!” como sempre ele deu aquele riso gostoso e aberto... “Pois é, meu caro, estou namorando a tua prima!”.
Mais um tempo se passa e hoje de madrugada vem ele: “Minha irmã casa sexta-feira!” e eu: “E você casa quando com a minha prima?” imagino que ele tenha rido antes de escrever a resposta no MSN: “Bom, estou pensando em daqui a três anos...” pensei comigo na hora, como um estalo: “Acho que crescemos, ele já pensa em casamento...!”.
Abração Doug! Ging véi!


Ps. A voz de hoje, evidentemente, foi em homenagem a esse cara super gente boa, pai de gêmeos (que não, não são filhos da minha prima). Bom pai. Professor de Biologia do Estado do Rio de Janeiro. Grande conhecedor de Botânica, maravilhoso cantor e grande contador de causos! Claro, meu amigo!
Ps. 2 A foto é de 2007, eu tinha acabado de entrar no mestrado e ainda achava que daria para equilibrar pesquisa, vida de professor e música em grupo! O que, é bem observável: não aconteceu, né?

domingo, 13 de setembro de 2009

Praça XV – 10 de janeiro de 2007

Começamos bem
Quando ficamos sós
E ontem, antes de duas garrafas de vinho
Massa e boa prosa com um amigo
Me lembrei do beijo doce na Praça XV
Pois o Rio era só nosso
O sol beijava o mar ao longe
A Perimetral parou
Na Primeiro de Março silenciaram os carros
E nem era dia de domingo
Entre choro e samba
Entra e sai de gente
Começamos bem
Quando ficamos sós
Só nós dois entre a multidão e o vai e vem do Rio
A 7 de setembro era só mais uma data em rua
A Uruguaiana só um ponto de referência
O Largo de São Francisco ficou estreito por nós dois
A Lapa, a praia, o bonde, tudo se entrecruzava
Enquanto tudo era um beijo
Meu e seu
E ontem, após duas garrafas de vinho
No silêncio do escritório
Com a claridade clarividente
De que mais um dia raiou
Transformando o ontem em hoje
Percebo que não há nada melhor no mundo
Que ter teu nome grafado num pedaço grande da minh’alma
Pois enquanto o dia acorda
Num provável dia calmo de domingo
Me lembrei da Praça XV
E no beijo doce que dei em você.